Coluna Nutrição Além do Prato
Cuidado em saúde não é disputa. É integração com responsabilidade
Com o aumento do interesse por saúde, emagrecimento, performance e qualidade de vida, também cresceu a quantidade de informações, orientações e estratégias sendo compartilhadas nas redes sociais, consultórios e diferentes espaços de cuidado. E, junto disso, surgiu um cenário que merece atenção: a dificuldade que muitas pessoas têm de entender qual é, de fato, o papel de cada profissional dentro do cuidado em saúde.
Hoje, é comum encontrar orientações alimentares sendo feitas por profissionais de diferentes áreas, muitas vezes ultrapassando os limites técnicos e éticos da própria atuação. E esse é um ponto importante de ser esclarecido, principalmente porque, para quem está buscando ajuda, muitas vezes tudo parece a mesma coisa. Mas não é.
O cuidado em saúde funciona melhor quando existe integração. Quando diferentes profissionais atuam juntos, somando conhecimentos e perspectivas em benefício do paciente. Médicos, nutricionistas, psicólogos, profissionais de educação física, fisioterapeutas, enfermeiros e tantos outros têm papéis extremamente importantes dentro desse processo. Mas integração não significa que todas as profissões fazem a mesma coisa.
Cada área existe porque possui uma formação específica, competências técnicas próprias e responsabilidades diferentes dentro do cuidado. No caso da nutrição, o nutricionista é o profissional legal e tecnicamente habilitado para realizar avaliação nutricional, calcular dietas, elaborar planejamento alimentar e conduzir estratégias relacionadas à alimentação de forma individualizada. E isso vai muito além de “passar uma dieta”. Envolve interpretação clínica, compreensão fisiológica, comportamento alimentar, contexto de saúde, rotina, exames, necessidades nutricionais, objetivos e riscos envolvidos em cada caso.
Da mesma forma, o profissional de educação física é quem possui formação adequada para prescrição de treinamento. O psicólogo para condução das questões emocionais e comportamentais. O médico para diagnóstico, avaliação clínica e condutas relacionadas à medicina. Quando cada profissional entende os limites e a importância da própria atuação, o paciente recebe um cuidado muito mais seguro, ético e eficiente.
Outro ponto importante é que, muitas vezes, mesmo existindo boas intenções, profissionais de outras áreas podem acabar transmitindo orientações alimentares incompletas, incoerentes ou até equivocadas. E isso não significa falta de cuidado ou preocupação com o paciente, mas sim ausência da formação específica necessária para aprofundar determinadas condutas de forma segura.
Na prática, isso pode gerar consequências importantes. Desde confusão e ansiedade em relação à alimentação até restrições desnecessárias, terrorismo nutricional e estratégias que não fazem sentido para a realidade ou necessidade daquele paciente. Em alguns casos, inclusive, existem riscos reais de prejuízo à saúde, principalmente quando orientações inadequadas são mantidas por longos períodos sem acompanhamento nutricional adequado.
Outro ponto importante é que informação superficial não substitui formação técnica. Hoje, com o acesso facilitado a conteúdos rápidos nas redes sociais, muitas orientações acabam parecendo simples demais. Mas alimentação não é apenas lista de alimentos, cálculo de calorias ou protocolos prontos.
Existe individualidade biológica, contexto clínico, comportamento, rotina, histórico, exames e uma série de fatores que precisam ser considerados de forma responsável. E talvez o mais importante seja entender que um cuidado verdadeiramente completo não acontece quando um único profissional tenta abraçar todas as áreas. Ele acontece quando existe respeito entre profissões, integração de conhecimento e clareza sobre até onde vai cada atuação.
Porque, no fim das contas, quem mais se beneficia disso é o paciente. E saúde de verdade precisa ser construída com responsabilidade, ética e trabalho conjunto.
Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real. Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.

Deixe um comentário