Coluna Nutrição Além do Prato
Quando um nutriente vira marketing
Quem entra hoje em um supermercado dificilmente passa por
uma prateleira sem encontrar algum destaque na embalagem. “High protein”.
“Fonte de fibras”. “Zero açúcar”. “Sem glúten”. “Com colágeno”. “Enriquecido
com vitaminas”. Em muitos casos, o nutriente deixa de ser apenas uma
característica do alimento e passa a ocupar o papel principal da estratégia de
venda. Nos últimos anos, a proteína talvez seja o melhor exemplo desse
fenômeno. Iogurtes, barras, sobremesas, sorvetes, biscoitos, chocolates e uma
infinidade de produtos passaram a destacar sua quantidade de proteína como se
esse único atributo fosse suficiente para definir a qualidade nutricional do
alimento. A mensagem transmitida é simples: se tem mais proteína, deve ser
melhor para a saúde.
A proteína é, sem dúvida, um nutriente essencial. Participa
da manutenção da massa muscular, da recuperação dos tecidos, da produção de
enzimas, hormônios e anticorpos, além de contribuir para a saciedade. Em
diferentes fases da vida, especialmente durante o envelhecimento ou para
pessoas fisicamente ativas, consumir uma quantidade adequada de proteínas faz
toda a diferença. O problema começa quando um nutriente deixa de ser parte do
alimento e passa a ser o próprio argumento de venda.
Na prática, isso faz com que muitos consumidores deixem de
olhar o alimento como um todo. A atenção se concentra em uma única informação
da embalagem, enquanto outros aspectos igualmente importantes passam
despercebidos. Quantidade de açúcar, qualidade das gorduras, lista de
ingredientes, grau de processamento e contexto de consumo acabam ficando em
segundo plano. Esse fenômeno recebe, inclusive, um nome na ciência do
comportamento do consumidor: efeito halo. Trata-se da tendência de permitir que
uma característica positiva influencie a percepção sobre todo o produto. É o
mesmo mecanismo que faz muitas pessoas acreditarem que um alimento é
automaticamente saudável apenas porque contém proteína, fibras ou vitaminas
adicionadas.
Isso não significa que alimentos enriquecidos ou produtos
proteicos sejam necessariamente ruins. Muitos deles podem ter espaço dentro de
uma alimentação equilibrada e atender necessidades específicas. O problema
surge quando o marketing faz parecer que adicionar um nutriente transforma
automaticamente um produto em uma escolha superior. Hoje encontramos chocolates
proteicos, sorvetes proteicos, pipocas proteicas, sobremesas proteicas e
diversos outros produtos enriquecidos. Isso não torna esses alimentos inadequados,
mas mostra como um nutriente passou a ocupar um espaço que, muitas vezes,
pertence mais ao marketing do que à ciência.
Enquanto isso, alimentos naturalmente ricos em proteínas,
como ovos, leite, iogurte natural, carnes, peixes, feijão e outras leguminosas,
continuam oferecendo proteínas de excelente qualidade acompanhadas de uma
matriz alimentar muito mais completa e, frequentemente, por um custo menor.
Curiosamente, eles nem sempre recebem o mesmo destaque que produtos
industrializados cuja principal estratégia de venda é justamente a adição de um
nutriente específico.
Talvez a reflexão mais importante seja entender que
nutrientes não existem isoladamente na vida real. Nós não consumimos proteínas,
fibras ou vitaminas separadas do restante do alimento. Consumimos refeições,
preparações e padrões alimentares. É esse conjunto que influencia nossa saúde
muito mais do que um único componente destacado na embalagem. Da mesma forma,
um produto não se torna automaticamente saudável apenas porque recebeu um
ingrediente a mais, assim como um alimento não deixa de ser nutritivo simplesmente
porque não traz uma alegação chamativa na parte da frente da embalagem.
Por isso, antes de colocar um produto no carrinho porque ele
promete mais proteína, vale fazer uma pergunta simples: estou escolhendo esse
alimento pela qualidade do conjunto ou apenas pela promessa estampada na frente
da embalagem? Essa talvez seja uma das habilidades mais importantes para quem
deseja fazer escolhas conscientes em um cenário onde o marketing alimentar se
torna cada vez mais sofisticado.
A ciência da nutrição continua sendo construída olhando para padrões alimentares, variedade, equilíbrio e contexto. O marketing, por outro lado, costuma funcionar destacando um único atributo capaz de chamar nossa atenção. E talvez essa seja a principal diferença entre os dois. Um nutriente pode ser extremamente importante para a saúde, mas, quando ele se transforma apenas em estratégia de venda, o risco é deixarmos de enxergar o alimento como um todo.
Marina Rocha Luciano é nutricionista clínica, formada pela
UNICAMP, com especialização em Nutrição Esportiva e Obesidade pela USP. Atua
com foco em emagrecimento, performance esportiva e qualidade de vida, sempre
com base científica e estratégias individualizadas. Em sua prática e em seus
textos, defende uma nutrição consciente, sustentável e aplicável à vida real.
Atende na clínica Centerclin, em Sumaré.

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